- 24 de maio de 2006 -

Desta vez, O Arauto do Principado de Sofia chegou com ligeiro atraso. Foi inevitável neste momento de ponderações maiores em que vivemos. Não só o Poder Moderador, mas todo o Principado de Sofia passa por um momento de franco amadurecimento, reavaliação e replanejamento. Não há nada mais saudável!

Luzes especiais neste mês para o Festival de Prosa e Poesia Sofista, conduzido pela pela Princesa-Consorte e pela Corte Heráldica com a maior excelência!

Eis o nosso trabalho. Esperamos que apreciem a leitura.

S. A. R. Lucius I

Impasse cerimonial


Como se procede desde 2004, o cerimonial do Poder Moderador solicitou ao presidente da Assembléia de Fanes, S. G. Leonardo reis, visconde de Fairview, a autorização para o início dos preparativos da solenidade de Fechamento e Abertura do parlamento. Entretanto, ao contrário de seus antecessores, o visconde de Fairview negou a autorização, informando que a solenidade seguiria ordenamentos próprios.

A recusa do então presidente chocou primeiramente o Conselho dos Nobres, depois todo o principado. O Mestre de Cerimônias do Poder Moderador solicitou informações sobre a solenidade, também recusadas, e a questão acabou por ganhar as ruas.

No mesmo dia um manifesto lançado pelo próprio Mestre de Cerimônias em Lista Nacional alertava a população para a perda de uma tradição que se vinha sustentando há mais de um ano. Aqueles que desejassem a manutenção da cerimônia tradicional deveriam assinar o manifesto, a ser enviado ao presidente da Assembléia.

O Manifesto, em menos de uma semana, alcançou dez assinaturas, principalmente entre os lordes do conselho dos Nobres, mas também entre outros nobres e não nobres de todo o país. Como solicitado pelo então presidente, o manifesto e todas as assinaturas foram enviadas à Assembléia de Fanes "por simples questão de segurança e organização", segundo palavras do próprio visconde.

No último dia 30 a cerimônia foi realizada pelo presidente da Assembléia, com inovações mas seguindo o ritual tradicional de colocação da Constituição sobre o pedestal e de trancamento e entrega da Chave de Bronze à marechala de Sofia, Fernanda Delli, marquesa de New Glasgow.

Hoje o manifesto conta com 15 assinaturas.

Fechamento e Abertura do Parlamento



O Principado de Sofia, desde 2004, realiza uma cerimônia para marcar solenemente a Abertura do parlamento. A cada quatro meses o parlamento eleito diretamente pelo povo é empossado na Assembléia de Fanes pelo Príncipe Monarca.

A primeira Abertura Solene seria feita no início de 2005. No entanto o Cerimonial do Poder Moderador, encarregado da elaboração e com o consentimento do presidente da Assembléia, sentindo a necessidade de antecipar os preparativos, elaborou conjuntamente uma cerimônia de menor porte, chamada de Fechamento do Parlamento.

No Fechamento, a Chave de Bronze da Assembléia (Bronze = povo), após trancar a porta principal, é entregue ao marechal da Guarda Real, que deverá guardá-la e entregá-la apenas durante a cerimônia de Abertura. No Fechamento também é posicionado um pedestal de pedra, símbolo da solidez e estabilidade, e sobre ele colocado um exemplar da Constituição Nacional. Ainda no Fechamento, o Trono que permanece no Parlamento é colocado á frente da mesa da presidência, como preparativo para a solenidade seguinte.

A Abertura do parlamento, feita em seguida, se inicia com a ida da Coroa de Sofia, levada pelo Lorde Maior, até às portas da Assembléia. Diante da Coroa o marechal abre a porta, e o Lorde Maior leva o símbolo da Nação e o coloca sobre a Constituição que estava no pedestal. Juntas, a Coroa a e Constituição, simbolizam o pilar único sobre o qual o principado se fundamenta, a Monarquia e a Democracia, a Democracia Coroada.

Em seguida o Príncipe Monarca vem à Assembléia de Fanes em trajes majestáticos, entra solenemente acompanhado dos lordes e dos estandartes, e coloca-se diante do Trono, com a Coroa sobre a cabeça e empunhando o Cetro da Justiça. Sentado, chama o Primeiro Ministro eleito e um parlamentar eleito para prestarem o juramento de fidelidade sobre o pedestal com a Coroa e a Constituição, e após o juramento declara, em nome do Povo, aberta a legislatura seguinte.

A cerimônia de Abertura do Parlamento foi constituída logo após a nomeação do primeiro Mestre de Cerimônias do Poder Moderador, o marquês de Beauvais, em novembro de 2004. Na época não havia solenidade que marcasse a transmissão de cargos na Assembléia de Fanes ou no Poder Executivo, sendo esta a primeira vez em que a mesma cerimônia foi seguida por cinco mandatos consecutivos.

Seguindo o modelo britânico, onde a monarca abre anualmente o Parlamento comparecendo à Câmara dos Lordes, modelo esse espalhado por todo o antigo império - hoje Commonwealth, onde os Governadores-Gerais abrem o parlamento seguindo um cerimonial similar - e também utilizando-se do cerimonial francês do Lit de Justice, onde o rei comparecia ao parlamento de Paris acompanhado dos Pares de França, a solenidade sofista busca, como todas elas, tornar visíveis procedimentos e posicionamentos que passam despercebidos na maior parte das ocasiões. Utilizando-se de linguagem simbólica, o parlamento é visto se dissolver e, através da vontade popular, baseado na democracia e nas leis nacionais, o Príncipe Monarca, representante máximo da Nação, reabre a Casa do Povo e, sem nunca poder recusar-se, devolve ao povo o governo do país.

Abrindo as Portas


Conselho Real de Nobres


Não foi concluída nenhuma votação no plenário do Conselho no mês de Abril.

Nobres Presentes:
Lorde Maior - Duque de East-Point - S. A. Jorge Casagrande Delli
Arquiduque de São Lourenço - S. A. Felipe
Duque de Port Hope - S. A. R. Lucius I
Duque de Sherbrooke - S. A. Manoel Augusto S. R. F. Alves
Marquesa de New Glasgow - S. G. Fernanda Delli
Marquês de Belleville - S. G. Ricardo Ribeiro - Não Votante
Marquês de Fontainebleau - S. G. Fernando Delli
Marquês de Nouvelle-Labrosute - S. G. Marcelus Silva
Marquês de Beauvais - S. G. Valentim S. da Costa


Por fim, o IRC


por S. A. R. Lucius I

Hoje, é possível comemorar com todas as garantias que só o tempo é capaz de dar: os canais #PSofia e #Sofia são nossos!

Como já narrado em edição anterior de O ARAUTO, o Principado de Sofia passou por tempos difíceis no que se refere à propriedade de dois veículos de comunicação. Primeiro, nosso canal oficial, segundo nosso ordenamento jurídico, o #PSofia retornou às mãos de nosso Estado mediante a lustrada atuação de Vinícius Januzzi que o detinha por motivos profissionais e, ao deixar Sofia, acabou levando-o consigo. Contatado, Januzzi mais que depressa tomou todas as medidas para que o canal retornasse ao Principado de Sofia. Ao menos no que se refere à lisura nesse processo, Januzzi merece aplausos.

Mas houve ainda outra reaquisição importante. O antigo canal #Sofia, que esteve por muito tempo em mãos estrangeiras e causou tantos conflitos ao longo de nossa história, voltou a nossa posse numa excelente demonstração de amizade e ética entre os cidadãos e nações da lusofonia. Registrado pelo cidadão portoclarente Lucas Silva, o canal retornou a nosso patrimônio através de bela intervenção do Embaixador portoclarense em terras sofistas, Sua Excelência Paulo Azize e graças à demonstração de boa conduta de Lucas. O canal foi transformado pelo Poder Moderador em uma instância histórica e será mantido para demonstrar nossa soberania sobre aquele espaço.

Por fim, o IRC já não é uma fonte de preocupações nem mantenedor de pendências. Agora, mais livre que em outras épocas, pode ser gozado como prazeroso ponto de encontro entre os micronacionalistas. Fica a todos o convite para adentrar nossos domínios e conversar com os amigos no canal #PSofia, rede Brasnet de IRC.


O papel da Tradição


O que é Tradição? Uma olhada rápida num mini-dicionário nos diria que é a transmissão oral de lendas ou fatos de geração em geração.

A cerimônia de Fechamento e Abertura do parlamento sofista é uma tradição? Alguns alegam que não. Apesar de ter ocorrido quatro vezes consecutivas com o mesmo ritual e de não ter tido a necessidade de lei para regulamentá-la, a cerimônia não seria uma tradição? Então o que é uma tradição no micromundo? Ou será que não existem tradições no micromundo?

Essa questão se liga a outra. Um dos objetivos traçados na Constituição Nacional do principado é a formação e manutenção de uma cultura própria, constituída sobre as nossas características e sobre a cultura herdada dos colonizadores. Mas como uma cultura pode ser formada sem tradições? Mesmo o Estado Sofista tendo nascido antes da Cultura sofista, e mesmo a sociedade tendo sido formada em grande parte sobre o que determinava a legislação, é imprescindível a formação de tradições para o enriquecimento cultural da nação.

Sofia tem uma grande produção literária, reavivada especialmente a cada Festival de Prosa e Poesia Sofista, que já alcança sua quarta realização. Não seria o Festival uma bela tradição sofista? Mas ele é baseado em lei - em teoria. A lei que determina sua realização não dirige a organização do mesmo. O regulamento deste ano seguiu o regulamento do ano passado, que se mostrou eficiente e justo. Provavelmente o próximo Festival utilizará o mesmo regulamento, com uma ou outra alteração. Pronto, temos uma nova tradição que não necessitou de lei para sua formação, e que serve de pedestal para dar sustento à literatura nacional, já consagrada em Pierre-Jesuiné ou na Sofíada.

E se há tradições, Sofia já conta com várias. Desde o ano passado o governo de Nouvelle Québec é transmitido em cerimônia própria, planejada pelo então governador Leonardo Reis, visconde de Fairview. Não há legislação que regulamente, mas todos os mandatários da província a realizam até hoje, há oito meses. Também uma cerimônia repetida, desde 2004, é a Troca das Lentes do Farol de West Point, realizada pelo marechal da Guarda Real no dia 31 de dezembro.

Caso se considere que as tradições existem, vamos para outra questão. Que papel elas ocupam? Serão apenas passatempo, algo de importância secundária, segundo afirmam alguns? Depende da importância que a sociedade dá à sua cultura. Se, como no Brasil, a cultura é relegada à margem das atenções, que colocam em primeiro lugar o poder e o dinheiro, e só invocada para propaganda eleitoral, as tradições realmente desempenharão um papel frívolo e quase caricato na mente dos cidadãos. Se, como em outros países, a cultura é tratada como assunto de importância indiscutível na formação do país e no seu crescimento, em igualdade de interesse com outras questões como economia, saúde e educação, aí sim, as tradições são levadas a sério e podem ser vistas como realmente são, um espelho de si próprios, uma voz que fala no passado, traz ao presente e prenuncia o futuro. Um eixo no qual a nação pode girar com segurança.


4º Festival de Prosa e Poesia Sofista


Foi um grandíssimo sucesso a quarta edição do Festival de Prosa e Poesia Sofista! Muitos foram os participantes e a qualidade de cada um deles impressionou o público e a Comissão Organizadora.

Trabalhos de Sofistas revelaram a sensibilidade e demonstraram os talentos que temos em nossa terra. Entre os amigos estrangeiros, a participação também foi louvável, especialmente no que se refere aos poemas. Fato é que os vinte e sete trabalhos participantes exibiram uma excelência poucas vezes reunida antes.

Dirigida de maneira magistral pela Princesa Consorte e com o apoio de instituições do Moderador - especialmente a Corte Heráldica de Sofia - tudo aconteceu de maneira a trazer à tona o que há de melhor na cultura literária da lusofonia.

Ao todo, Me$ 5.000,00 foram distribuídos em prêmios. Tão grande volume não teria sido possível sem a beneficência do Poder Executivo, Ducado de Port Hope, Marquês de Belleville, Sir Eduardo Almeida, a Província Ultramarina de Apuelo e a Província de Nouvelle Quebec.

Aqui publicamos os vencedores em cada uma das categorias e convidamos todos a conhecer os demais vencedores em http://www.sofia.org.br/chs/fpps/4_fpps_historico.htm.


Categoria Poesia - 1º lugar
S. G. McMillan Hunt, barão de Chablis


O POEMA CELESTIAL

Conforme resgatado & extraído dos escritos do nobilíssimo & grande PIERRE-JESUINÉ. Que escreveu segundo o que ele mesmo presenciou no além-morte ao ter contato com a LVX , que em terra manifesta-se sob este símbolo de SANTA CLARA.

Quando fui pro além,
Nem O maior quis salvar-me.

Quando perguntei por alguém,
Ela disse “a me , a me”.

Eu vi a Luz que paira dentro de mim,
E que sempre esteve lá.

Não há fim,
Nada começará.

**

Direis ouvir um tolo,
Mas a Verdade quiçá existe.

Pois eu mesmo pro céu fui levado no colo,
E vi que Verdade é uma ausência triste.

Vi que acompanha todos ,
E sua dor é de não ser exclusiva.

Todos os seus atos são engodos,
E sua ilusão é abusiva.

**

Eu beijei as faces de Paixão,
Olhei em seus olhos e ela estava vazia.

Consigo sempre estava Dor,
Que sofrer tudo fazia.

Em cada uma delas eu vi,
O infernal da terra.

Uma sempre fazendo a falta vir,
E a outra que desta falta com a angústia tudo encerra.
**
Toquei os lábios de Amor,
Mergulhei na imensidão da completitude.

Fixei a idéia de que algo sempre tem um opositor,
E que é o Amor sua plenitude.

Arrisquei me entregar,
Ao meu coração.

Vi efetivar,
A universal união.

**

Acariciei as asas de Liberdade,
Pulei no infinito abismo.

Vislumbrei minha primordial Vontade,
Aquilo que está em tudo que cismo.

Peguei uma de suas penas,
E vôo ao viver.

Livre em todas as cenas,
Me perpetuarei!

**

Eu vislumbrei os Campos Elísios,
Mas eu preferi viver!

Na terra dos címios,
Escolhi mais ainda sofrer.

Pois os anjos não gozam,
As senhoritas do céu não choram.

O que vivem é o que adoram,
Com os homens eles jogam.

**

Mas eles viram desta escolha uma ingratidão,
E o pior me deram para viver.

Uma maldição , sim , uma maldição!
De viver sem nada poder temer.

Foi esta barganha que minha Luz conseguiu,
Nada a reclamar.

Onde já se viu,
De um presente não aproveitar?

**

Volvi então para a destruição,
Para o solo das falsidades.

Senti o frescor da respiração,
O prazer de lutar contra as dificuldades.

Eu vivo feliz,
Morrerei certamente.

Quanto ao que fiz,
Muito pouco soube a gente.

**

Para a LUZ uma abadia construí,
Para o medo nunca chegar.

Ainda não me traí,
Um dia Morte irá me carregar.

Nada me arrependi,
Viverei para experimentar.

À LUZ , a ti!
Liberdade & Amor , vivenciar!

PIERRE-JESUINÉ , em SANTA CLARA , 6 de Abril de 1801 (d.c.)

E assim está transcrito conforme escrito por PIERRE-JESUINÉ , o virtuoso & bravo gigante d´Anticosti. De seu poema sobre o que viu , viveu e sentiu ao sair e voltar para a Terra.


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Categoria Prosa - 1º lugar
Lucas von Alberdeen


DORMIR

"Todo o mundo é pouco para um homem; é apenas o espaço para sonhar. Um homem estende-se sobre a terra, e tem aquela sensação duma criança já grande demais, dentro de um armário. Mas isso basta-lhe: - o mundo inteiro ou o armário tem espaço suficiente para sonhar”. (Agustina Bessa-Luís)

Começou pela cama. Retirou os lençóis sujos, o colchão e o estrado. Limpou-a bem. Recolocou o estrado e depois o colchão, só que agora virando para cima a face que estava para baixo. Pegou lençóis limpos, que estavam numa cadeira, e estendeu sobre a cama. Passou as partes salientes para baixo do colchão, de modo que nenhuma ruga se formou no tecido de cor roxa. Não levou mais que meia hora arrumando a cama. Apanhou o travesseiro que estava sobre a cadeira e começou a encapá-lo com a fronha, da mesma cor do lençol.

“Você não deve se sentir assim”, disse-lhe Lu.

“E quer que me sinta como?”, retrucou.

“Você sempre está tendo essas crises existenciais... E eu me preocupo cada vez que você fica assim.” Pôs lentamente o travesseiro sobre a cama, alisando a fronha com as mãos para que não ficassem rugas. Da mesma cadeira, apanhou um edredom azul claro.

“Por quê?”

“Tenho medo que faça alguma besteira”, desabafou Lu.

“Mais do que já fiz?” Terminou de esticar o edredom, também cuidando para que ele não ficasse amarrotado. Depois afastou da parede a cabeceira da cama e pegou um prego e um martelo.

“Acho que você se menospreza sem razão e às vezes mais parece um beberrão. Desde quando é medíocre? Você possui características pessoais singulares, capacidades que jamais percebi em outras pessoas...”

Pendurou no prego que acabara de martelar um crucifixo prateado de uns trinta centímetros de comprimento. Do ponto de encontro das duas hastes que formavam a cruz, saiam feixes dourados simbolizando a luz divina.

“E no que isso me faz melhor?”, interrompeu-a,

“Não minha amiga, isso me faz diferente! Sou meramente diferente de ti. Mas qualquer uma de suas capacidades, aquelas pertencentes somente a ti, anularia as minhas. E diante disso passo a ser igual a ti, senão menor. Tens razão ao me chamar de beberrão. Tenho a mesma vida que tinha aos nove anos de idade. Minha rotina se resume à faculdade e à casa de meus pais. Isso me põe ao nível onde estão as crianças, que sempre são vigilantemente controladas e na hora do perigo se escondem na barra da saia da mãe, de uma maneira em que nenhuma das minhas capacidades concede-me status superior. Aí está a mediocridade da minha vida.” Encostou novamente a cabeceira na parede e foi rapidamente à sala, onde apanhou um vaso de vidro transparente. Colocou-o bem no centro da cômoda que ficava ao lado esquerdo da cama. Pegou os lírios e as rosas que estavam sobre ela e arrumou-os no vaso, ficando as rosas em torno de sete centímetros acima dos lírios.

“Diga-me uma coisa, minha querida”, respirou fundo e perguntou, “Já conheceu o amor?”, e ficou um tempo calado como se esperasse a resposta.

“Mas não esse amor qualquer, vulgar. Amor com toda a intensidade que a palavra pressupõe. Amor de estado de humor, de envolvimento corporal e entrega completa à pessoa que te ama. Não falo do amor que se sente na brevidade e dura poucos segundos racionais, mas do amor que se prolonga no tempo, que existe por um tempo emocional incalculável, daquele amor que te sustenta. Já viveu o amor tal que ele é?” Após arrumar as flores no vaso, passou a enfeitá-lo com ramos de cedro sob os lírios. Os cedros exalavam um perfume forte que muito apreciava. O cheiro fazia-o lembrar das vias estreitas do último lar de seu avô.

“Eu não. Minto. Senti uma vez... eu acho... ou melhor, por uma única vez vivi algo que se aproximou desse amor. Foi quando tinha vinte e um anos. Era quase noite. Estávamos na parte alta da cidade, de onde era possível contemplar o estreito feixe dourado se apagando no horizonte. Estava meio escuro... sabe... quando fica aquele entardecer/anoitecer quando nem a luz do sol e a luz dos postes são suficientes para iluminar o local, permitindo apenas que as silhuetas sejam distinguidas. Aproximei-me devagar, estava com medo, titubeante e melindroso. Olhei-a nos olhos e na boca. De início foi apenas um toque de lábios. Ela aceitou meu beijo. Aos poucos fui relaxando; peguei-a pela cintura e ela enlaçou seus braços no meu pescoço. E o beijo foi ficando mais apaixonado. Ali sim houve um princípio de entrega. O beijo fez de nós dois uma só pessoa. Com minhas mãos eu afagava seu rosto e ela no meu cabelo fazia um carinhoso cafuné. Beijávamos loucamente. Um tempo depois do beijo ainda olhávamos compenetrados; no canto de minha boca era visível um sorriso maroto. Mas no dia seguinte, todo esse momento parecia não ter existido e daí aconteceu toda aquela história muitas vezes já ouvida por ti.”

“E... no que isso te faz medíocre?”, perguntou Lu em tom depreciativo.

Terminado, conferiu se o vaso estava bem exatamente no centro da cômoda. Dirigiu-se até o armário e pegou quatro velas, daquelas que duram uma semana. Pôs uma em cada vértice do móvel, mas não as acendeu.

“Todas as minhas tentativas amorosas foram frustradas. Já me viu com alguém? Nunca tive uma mulher do meu lado, alguém para abraçar e receber um carinho, para dividir um brigadeiro. Todas as vezes que pensei estar na iminência de encontrar esse alguém, nenhuma se realizou. A mesma frustração se repete quando vou arrumar emprego. Depois de cada entrevista, saio com aquela expectativa, e na falsa ilusão de que o selecionado serei eu, fico alimentando um sonho. Passa um, dois dias e começa a crescer a certeza de que mais uma vez fui preterido, certeza que cresce enquanto a expectativa de um resultado favorável cai. No final da segunda semana a confirmação de que mais uma vez não deu certo é inevitável.” Voltou ao armário e pegou o terno preto, a camisa branca e gravata vermelha. Levou para a sala. Na área de serviço tomou o ferro e a tábua de passar. Começou pela camisa.

“Mas isso são problemas que todos têm. Com você não é diferente.”

“E que me incomodam, porque as frustrações só se somam. Tenho a impressão de que nada acontece comigo. Eu não aprendi experiências necessárias ao meu crescimento pessoal. Não sei o que é receber por um trabalho ao qual assumi uma responsabilidade e que qualquer falha cometida por mim pode comprometer credibilidade e respeito construídos em anos. Não sei o que é corresponder um amor, assumindo direito, deveres e compromissos. Tudo o que faço, seja no âmbito pessoal, profissional, estudantil ou amoroso da minha vida, repercute unicamente em mim. Sinto como se estivesse parado diante do mundo em movimento. Como se eu estivesse no olho de um furacão que atinge tudo à minha volta, menos eu. Parece que o trem passa, todos embarcam, mas como não sobrou passagem para mim, serei obrigado a embarcar no próximo. Só que o próximo trem abre as portas para aqueles cuja hora de embarcar chegou e não para aqueles cuja hora de embarcar passou. E novamente eu fico.”

“Isso é exagero. E você sempre pode contar comigo...”

“Para mim está sendo difícil enfrentar meus problemas. Eles me derrubam e não consigo mais levantar. Todo o dia caio e levanto e quando penso estar recuperado, algo me derruba de novo e assim se repete. Cheguei a um estágio que não consigo mais me levantar. É difícil! Não tenho mais forças para travar essa guerra surreal e cíclica. Sabe o que é matar o inimigo e segundos depois confirmar que ele está atrás de você te apunhalando? Ele sempre renasce mais forte e não adianta destruí-lo porque ele sempre vai estar me perseguindo. Ah! Já desisti de lutar; desisti porque já lutei demais para não chegar a lugar nenhum.”

Caprichou ao passar a roupa para evitar a formação de pregas e rugas. Levou-a para o quarto e colocou as peças estendidas sobre o colchão, sobrepondo umas às outras, primeiro o paletó, depois a calça e camisa e por cima de tudo a gravata. Abriu novamente o armário, retirou uma caixa de sapatos e conferiu-os. Precisavam de graxa.

“Já te disse que uma vez quase pus fim a tudo?”, perguntou a Lu.

Ela ficou com o olhar tenso como se respondesse à pergunta, mas não o fez.

“Foi há quase dois anos. Acho que você se lembra, foi quando eu tive um desses meus momentos aos quais você chama de crise existencial. Estava decidido. Fui para a aula e na faculdade escrevi uma carta, somente com a intenção de isentar os inocentes da culpa. Saí de lá e fui para a linha férrea que há perto do campus; você sabe onde é. Lá fiquei meditando por um longo tempo, quase umas duas horas, sem me importar com o que acontecia à minha volta. Assim que ouvi o barulho do trem se aproximando, peguei a carta que estava em meu bolso e enfiei dentro da minha mochila e coloquei a mochila numas pedras um pouco afastadas do trilho. Subi em um dormente, bem na ponta e não no meio, entre os ferros por onde as rodas do trem andam, e fiquei esperando o trem. A vibração da madeira aumentava com a aproximação dos vagões e o som era ensurdecedor. Ao fundo era possível ouvir o apito das cancelas bloqueando a passagem das ruas. Na minha cabeça, uma única frase, 'o passo à frente , o passo à frente, o passo à frente, o passo à frente, o passo à frente', se repetia ritmada pelo barulho do trem. Quando a locomotiva estava a três metros de mim, escutei meu coração batendo. Então dei o passo à trás.”

“O que te fez mudar de idéia?”, disse Lu, impressionada.

“Medo. Tive medo. Tive medo como sempre tive medo de tudo. Medo que me trouxe a vergonha e a auto-humilhação. Me senti fraco, pequeno, desprezível... Tive medo de morrer e continuar neste pesadelo.”

“E esse pesadelo em que vive não seria algo criado por você inconscientemente?”, disse Lu, como se tivesse descoberto a causa daquela paranóia.

“Daí você aufere personalidade ao meu consciente e o presume ser capaz de dominar meu estado racional a ponto de criar uma realidade que me prejudica sem o meu aval. Mas eu só poderia aceitá-la se o meu inconsciente enganasse o meu consciente e o manipulasse. Ou seja, eu só poderia viver nesta realidade desprovido totalmente do meu consciente, pois tão logo meu consciente percebesse estar dominado, ele questionaria a realidade e retomaria para si o seu controle, destruindo as suas configurações, fazendo-me acordar fora deste pesadelo. Portanto a personalidade do meu inconsciente é secundária, já que não conseguiria perpetuar a sua realidade. E não é isso que está ocorrendo, o pesadelo está se perpetuando e eu não consigo subverter sua realidade. Então, esse mundo em que vivo não pode ser algo criado por mim, inconscientemente.”

Engraxou os sapatos minuciosamente. Primeiro derreteu um pouco de graxa numa vela e depois a passou por todo o sapato, cobrindo cada pedacinho daquele couro preto. Após isso os lustrou e escovou-os produzindo aquele brilho fosco. Olhou os sapatos como quisesse ver-se refletido nele. Levou para o quarto, colocando-os em frente à cômoda. Dirigiu-se para o banheiro, abriu o chuveiro, despiu-se e entrou no box. Deixou a água escorrer sobre seu corpo, lavando-o da cabeça aos pés. Sentou no chão ficou ali, apenas sentindo a água tocá-lo. Enxugou-se e voltou ao quarto. Sentou-se na cama e chorou por quase dez minutos, tentando secar as lágrimas com as mãos.

“E você pretende fazer alguma coisa contra essa realidade?”, perguntou Lu, abraçando-o.

“Na verdade não se trata de fazer alguma coisa. Não é fazer, é apenas querer. Queria não ser fraco, ter coragem para lutar. Queria ser capaz de viver no meu mundo, onde nada ou ninguém destruísse meus sonhos. Onde eu pudesse sonhar sem ter a obrigação de realizar meus sonhos e sem me chatear se eles não se concretizarem. Queria somente um lugar para sonhar. Um lugar onde eu pudesse voar, deslizar pelo ar, sem sentir minhas asas derreterem. Onde só houvesse pessoas de coração puro e elas me dariam a mão para voar comigo. Um lugar onde o céu fosse azul claro e o perfume das rosas viajasse ao vento. Um lugar onde todos pudessem criar uma tartaruga, alimentando-a com alface ou pequenos peixinhos secos e vê-las caminhar lentamente pela grama verde. Um lugar onde eu não caia e não existam meus inimigos, onde eu pudesse amar com toda a intensidade da palavra amor. Um lugar onde eu pudesse viver a minha vida e não aquela que os outros escolheram para mim.”

“Chega!”, gritou Lu, “isso é sonho!” “Este lugar só existe na tua cabeça. É impossível ir para lá. Só existe este mundo. Somente este. Coloca isso na tua cabeça!”

“Aí que você se engana. É possível sim ir para este mundo e eu sei como.”, e começou a falar com a voz baixa, calma e suave, “É como dormir, como dormir e sonhar profundamente, como sonhar tão profundamente que eu conseguiria me transportar para lá. É como dormir e deixar de viver aqui e só vivesse no meu mundo onírico. Como dormir eternamente. É assim que vou passar para lá.”

Levantou-se, abriu uma gaveta, pegou uma cueca e vestiu-se. Pegou a camisa que estava sobre a cama e vestiu-a, abotoando vagarosamente cada um dos oito botões. Abotoou os do punho, apanhou a gravata e passou-a pelo pescoço. Mediu-a até achar a altura certa para o nó e tentou fazer o laço três vezes. Na quarta, acertou. Fez um nó windsor, bonito e vistoso. Ajustou o nó na garganta apertando bem.

“Como sonhar tão profundamente que eu conseguiria me transportar para lá. Como dormir e não acordar mais. Como dormir eternamente. É assim que vou para lá. Que vou para lá. Eternamente. Profundamente. Vou me transportar para lá. Dormir profundamente, sonhar eternamente. É assim que vou para lá.” Lu acordou com essas frases ecoando na sua cabeça.

Elas iam e voltavam num ritmo hipnótico que sobrepunha uma às outras. Era a conversa que teve com seu amigo há dois dias. A conversa lhe perturbava e lhe preocupava. Acreditava que aquilo não fora um mero desabafo. Olhou no relógio: 14:50. Não dormia à tarde. Percebeu: não havia dormido, mas penetrado na conversa, voltado àquele momento de dois dias atrás. O coração começou a bater forte, desesperado, acelerado.

“Já sei o que ele vai fazer”, pensou.

Chegou à casa de seu amigo cinco minutos depois das três horas. Entrou abruptamente e dirigiu-se ao quarto. Nem percebeu que não havia tocado a campainha ou batido na porta, como sequer se preocupou em descobrir se havia alguém na casa. Entrou no quarto e encontrou o seu amigo de terno preto todo abotoado, deitado na cama, sobre o edredom azul claro com as mãos cruzadas sobre a barriga.

Na cômoda viu o vaso com os lírios, as rosas e os ramos de cedro e as quatro velas acesas. Impressionou-se quando viu o crucifixo, de cujo centro saiam feixes dourados, na parede.

Tocou-o e no mesmo instante sentiu o seu corpo esfriar até ficar gélido. Sacudiu-o, bateu-lhe na cara, mas ele não reagiu.

Ele estava dormindo, e sonhando tão profundamente que já não era mais possível acordá-lo.

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A Fala do Trono


Temos vivido um tempo peculiar para o Principado de Sofia. Um momento em que o que havia de pueril e momentâneo jaz num passado que não fazemos questão de repetir. Isso porque muitos dos desejos que nos haviam movido até há bem pouco tempo chegam a um período de reavaliação. É preciso revisitar nossas expectativas e reformular nossos caminhos.

A verdade é que certos sonhos acabam adormecendo para dar lugar a novos objetivos. Nada há a temer ou frustrar-se, pois a evolução de nossos fins e métodos é absolutamente natural ao processo de amadurecimento ao qual estamos passando.

Pudemos perceber que nem tudo que desejávamos poderia se efetivar tal qual queríamos. Também somos obrigados a repensar nossas estruturas, estudar os caminhos possíveis e buscar maiores informações.

Estamos em um momento especial!

Precisamos tomar ciência de que nosso passado, estabilizado, cria nosso jeito e nossa cultura - da qual tanto nos orgulhamos.

Mas é imprescindível que, mais uma vez, tenhamos a ousadia de seguir adiante no processo civilizatório, mantendo o que nos é peculiar e querido e, com planejamento e ordem, prosseguir rumo a um novo futuro de nossa atividade.

Os que querem sobreviver, precisam ser vanguarda!

Nós sempre o fomos e, com segurança e sobriedade, continuaremos a trazer novas idéias e formulações.

Nossos sonhos - agora novos sonhos - vão se realizar com sucesso, pelo trabalho de nossas melhores cabeças e mais fortes braços.

Vamos lá, Sofia! O futuro nos espera!

 

S. A. R. Lucius I
Príncipe Monarca e Defensor Perpétuo de Sofia

 

 

O Arauto
Registro: 188.01.00.06/2006

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Príncipe Monarca de Sofia

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S. G. Valentim S. da Costa
Marquês de Beauvais

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Sir João Henrique S. R. F. Alves

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