Desta vez, O Arauto do Principado de Sofia chegou com ligeiro atraso. Foi inevitável neste momento de ponderações maiores em que vivemos. Não só o Poder Moderador, mas todo o Principado de Sofia passa por um momento de franco amadurecimento, reavaliação e replanejamento. Não há nada mais saudável! S. A. R. Lucius I Impasse cerimonial
Fechamento e Abertura do Parlamento
Abrindo as Portas
Hoje, é possível comemorar com todas as garantias que só o tempo é capaz de dar: os canais #PSofia e #Sofia são nossos!
Conforme resgatado & extraído dos escritos do nobilíssimo & grande PIERRE-JESUINÉ. Que escreveu segundo o que ele mesmo presenciou no além-morte ao ter contato com a LVX , que em terra manifesta-se sob este símbolo de SANTA CLARA. Quando fui pro além, Quando perguntei por alguém, Eu vi a Luz que paira dentro de mim, Não há fim, ** Direis ouvir um tolo, Pois eu mesmo pro céu fui levado no colo, Vi que acompanha todos , Todos os seus atos são engodos, ** Eu beijei as faces de Paixão, Consigo sempre estava Dor, Em cada uma delas eu vi, Uma sempre fazendo a falta vir, Fixei a idéia de que algo sempre tem um opositor, Arrisquei me entregar, Vi efetivar, ** Acariciei as asas de Liberdade, Vislumbrei minha primordial Vontade, Peguei uma de suas penas, Livre em todas as cenas, ** Eu vislumbrei os Campos Elísios, Na terra dos címios, Pois os anjos não gozam, O que vivem é o que adoram, ** Mas eles viram desta escolha uma ingratidão, Uma maldição , sim , uma maldição! Foi esta barganha que minha Luz conseguiu, Onde já se viu, ** Volvi então para a destruição, Senti o frescor da respiração, Eu vivo feliz, Quanto ao que fiz, ** Para a LUZ uma abadia construí, Ainda não me traí, Nada me arrependi, À LUZ , a ti! PIERRE-JESUINÉ , em SANTA CLARA , 6 de Abril de 1801 (d.c.) E assim está transcrito conforme escrito por PIERRE-JESUINÉ , o virtuoso & bravo gigante d´Anticosti. De seu poema sobre o que viu , viveu e sentiu ao sair e voltar para a Terra.
"Todo o mundo é pouco para um homem; é apenas o espaço para sonhar. Um homem estende-se sobre a terra, e tem aquela sensação duma criança já grande demais, dentro de um armário. Mas isso basta-lhe: - o mundo inteiro ou o armário tem espaço suficiente para sonhar”. (Agustina Bessa-Luís) Começou pela cama. Retirou os lençóis sujos, o colchão e o estrado. Limpou-a bem. Recolocou o estrado e depois o colchão, só que agora virando para cima a face que estava para baixo. Pegou lençóis limpos, que estavam numa cadeira, e estendeu sobre a cama. Passou as partes salientes para baixo do colchão, de modo que nenhuma ruga se formou no tecido de cor roxa. Não levou mais que meia hora arrumando a cama. Apanhou o travesseiro que estava sobre a cadeira e começou a encapá-lo com a fronha, da mesma cor do lençol. “Você não deve se sentir assim”, disse-lhe Lu. “E quer que me sinta como?”, retrucou. “Você sempre está tendo essas crises existenciais... E eu me preocupo cada vez que você fica assim.” Pôs lentamente o travesseiro sobre a cama, alisando a fronha com as mãos para que não ficassem rugas. Da mesma cadeira, apanhou um edredom azul claro. “Por quê?” “Tenho medo que faça alguma besteira”, desabafou Lu. “Mais do que já fiz?” Terminou de esticar o edredom, também cuidando para que ele não ficasse amarrotado. Depois afastou da parede a cabeceira da cama e pegou um prego e um martelo. “Acho que você se menospreza sem razão e às vezes mais parece um beberrão. Desde quando é medíocre? Você possui características pessoais singulares, capacidades que jamais percebi em outras pessoas...” Pendurou no prego que acabara de martelar um crucifixo prateado de uns trinta centímetros de comprimento. Do ponto de encontro das duas hastes que formavam a cruz, saiam feixes dourados simbolizando a luz divina. “E no que isso me faz melhor?”, interrompeu-a, “Não minha amiga, isso me faz diferente! Sou meramente diferente de ti. Mas qualquer uma de suas capacidades, aquelas pertencentes somente a ti, anularia as minhas. E diante disso passo a ser igual a ti, senão menor. Tens razão ao me chamar de beberrão. Tenho a mesma vida que tinha aos nove anos de idade. Minha rotina se resume à faculdade e à casa de meus pais. Isso me põe ao nível onde estão as crianças, que sempre são vigilantemente controladas e na hora do perigo se escondem na barra da saia da mãe, de uma maneira em que nenhuma das minhas capacidades concede-me status superior. Aí está a mediocridade da minha vida.” Encostou novamente a cabeceira na parede e foi rapidamente à sala, onde apanhou um vaso de vidro transparente. Colocou-o bem no centro da cômoda que ficava ao lado esquerdo da cama. Pegou os lírios e as rosas que estavam sobre ela e arrumou-os no vaso, ficando as rosas em torno de sete centímetros acima dos lírios. “Diga-me uma coisa, minha querida”, respirou fundo e perguntou, “Já conheceu o amor?”, e ficou um tempo calado como se esperasse a resposta. “Mas não esse amor qualquer, vulgar. Amor com toda a intensidade que a palavra pressupõe. Amor de estado de humor, de envolvimento corporal e entrega completa à pessoa que te ama. Não falo do amor que se sente na brevidade e dura poucos segundos racionais, mas do amor que se prolonga no tempo, que existe por um tempo emocional incalculável, daquele amor que te sustenta. Já viveu o amor tal que ele é?” Após arrumar as flores no vaso, passou a enfeitá-lo com ramos de cedro sob os lírios. Os cedros exalavam um perfume forte que muito apreciava. O cheiro fazia-o lembrar das vias estreitas do último lar de seu avô. “Eu não. Minto. Senti uma vez... eu acho... ou melhor, por uma única vez vivi algo que se aproximou desse amor. Foi quando tinha vinte e um anos. Era quase noite. Estávamos na parte alta da cidade, de onde era possível contemplar o estreito feixe dourado se apagando no horizonte. Estava meio escuro... sabe... quando fica aquele entardecer/anoitecer quando nem a luz do sol e a luz dos postes são suficientes para iluminar o local, permitindo apenas que as silhuetas sejam distinguidas. Aproximei-me devagar, estava com medo, titubeante e melindroso. Olhei-a nos olhos e na boca. De início foi apenas um toque de lábios. Ela aceitou meu beijo. Aos poucos fui relaxando; peguei-a pela cintura e ela enlaçou seus braços no meu pescoço. E o beijo foi ficando mais apaixonado. Ali sim houve um princípio de entrega. O beijo fez de nós dois uma só pessoa. Com minhas mãos eu afagava seu rosto e ela no meu cabelo fazia um carinhoso cafuné. Beijávamos loucamente. Um tempo depois do beijo ainda olhávamos compenetrados; no canto de minha boca era visível um sorriso maroto. Mas no dia seguinte, todo esse momento parecia não ter existido e daí aconteceu toda aquela história muitas vezes já ouvida por ti.” “E... no que isso te faz medíocre?”, perguntou Lu em tom depreciativo. Terminado, conferiu se o vaso estava bem exatamente no centro da cômoda. Dirigiu-se até o armário e pegou quatro velas, daquelas que duram uma semana. Pôs uma em cada vértice do móvel, mas não as acendeu. “Todas as minhas tentativas amorosas foram frustradas. Já me viu com alguém? Nunca tive uma mulher do meu lado, alguém para abraçar e receber um carinho, para dividir um brigadeiro. Todas as vezes que pensei estar na iminência de encontrar esse alguém, nenhuma se realizou. A mesma frustração se repete quando vou arrumar emprego. Depois de cada entrevista, saio com aquela expectativa, e na falsa ilusão de que o selecionado serei eu, fico alimentando um sonho. Passa um, dois dias e começa a crescer a certeza de que mais uma vez fui preterido, certeza que cresce enquanto a expectativa de um resultado favorável cai. No final da segunda semana a confirmação de que mais uma vez não deu certo é inevitável.” Voltou ao armário e pegou o terno preto, a camisa branca e gravata vermelha. Levou para a sala. Na área de serviço tomou o ferro e a tábua de passar. Começou pela camisa. “Mas isso são problemas que todos têm. Com você não é diferente.” “E que me incomodam, porque as frustrações só se somam. Tenho a impressão de que nada acontece comigo. Eu não aprendi experiências necessárias ao meu crescimento pessoal. Não sei o que é receber por um trabalho ao qual assumi uma responsabilidade e que qualquer falha cometida por mim pode comprometer credibilidade e respeito construídos em anos. Não sei o que é corresponder um amor, assumindo direito, deveres e compromissos. Tudo o que faço, seja no âmbito pessoal, profissional, estudantil ou amoroso da minha vida, repercute unicamente em mim. Sinto como se estivesse parado diante do mundo em movimento. Como se eu estivesse no olho de um furacão que atinge tudo à minha volta, menos eu. Parece que o trem passa, todos embarcam, mas como não sobrou passagem para mim, serei obrigado a embarcar no próximo. Só que o próximo trem abre as portas para aqueles cuja hora de embarcar chegou e não para aqueles cuja hora de embarcar passou. E novamente eu fico.” “Isso é exagero. E você sempre pode contar comigo...” “Para mim está sendo difícil enfrentar meus problemas. Eles me derrubam e não consigo mais levantar. Todo o dia caio e levanto e quando penso estar recuperado, algo me derruba de novo e assim se repete. Cheguei a um estágio que não consigo mais me levantar. É difícil! Não tenho mais forças para travar essa guerra surreal e cíclica. Sabe o que é matar o inimigo e segundos depois confirmar que ele está atrás de você te apunhalando? Ele sempre renasce mais forte e não adianta destruí-lo porque ele sempre vai estar me perseguindo. Ah! Já desisti de lutar; desisti porque já lutei demais para não chegar a lugar nenhum.” Caprichou ao passar a roupa para evitar a formação de pregas e rugas. Levou-a para o quarto e colocou as peças estendidas sobre o colchão, sobrepondo umas às outras, primeiro o paletó, depois a calça e camisa e por cima de tudo a gravata. Abriu novamente o armário, retirou uma caixa de sapatos e conferiu-os. Precisavam de graxa. “Já te disse que uma vez quase pus fim a tudo?”, perguntou a Lu. Ela ficou com o olhar tenso como se respondesse à pergunta, mas não o fez. “Foi há quase dois anos. Acho que você se lembra, foi quando eu tive um desses meus momentos aos quais você chama de crise existencial. Estava decidido. Fui para a aula e na faculdade escrevi uma carta, somente com a intenção de isentar os inocentes da culpa. Saí de lá e fui para a linha férrea que há perto do campus; você sabe onde é. Lá fiquei meditando por um longo tempo, quase umas duas horas, sem me importar com o que acontecia à minha volta. Assim que ouvi o barulho do trem se aproximando, peguei a carta que estava em meu bolso e enfiei dentro da minha mochila e coloquei a mochila numas pedras um pouco afastadas do trilho. Subi em um dormente, bem na ponta e não no meio, entre os ferros por onde as rodas do trem andam, e fiquei esperando o trem. A vibração da madeira aumentava com a aproximação dos vagões e o som era ensurdecedor. Ao fundo era possível ouvir o apito das cancelas bloqueando a passagem das ruas. Na minha cabeça, uma única frase, 'o passo à frente , o passo à frente, o passo à frente, o passo à frente, o passo à frente', se repetia ritmada pelo barulho do trem. Quando a locomotiva estava a três metros de mim, escutei meu coração batendo. Então dei o passo à trás.” “O que te fez mudar de idéia?”, disse Lu, impressionada. “Medo. Tive medo. Tive medo como sempre tive medo de tudo. Medo que me trouxe a vergonha e a auto-humilhação. Me senti fraco, pequeno, desprezível... Tive medo de morrer e continuar neste pesadelo.” “E esse pesadelo em que vive não seria algo criado por você inconscientemente?”, disse Lu, como se tivesse descoberto a causa daquela paranóia. “Daí você aufere personalidade ao meu consciente e o presume ser capaz de dominar meu estado racional a ponto de criar uma realidade que me prejudica sem o meu aval. Mas eu só poderia aceitá-la se o meu inconsciente enganasse o meu consciente e o manipulasse. Ou seja, eu só poderia viver nesta realidade desprovido totalmente do meu consciente, pois tão logo meu consciente percebesse estar dominado, ele questionaria a realidade e retomaria para si o seu controle, destruindo as suas configurações, fazendo-me acordar fora deste pesadelo. Portanto a personalidade do meu inconsciente é secundária, já que não conseguiria perpetuar a sua realidade. E não é isso que está ocorrendo, o pesadelo está se perpetuando e eu não consigo subverter sua realidade. Então, esse mundo em que vivo não pode ser algo criado por mim, inconscientemente.” Engraxou os sapatos minuciosamente. Primeiro derreteu um pouco de graxa numa vela e depois a passou por todo o sapato, cobrindo cada pedacinho daquele couro preto. Após isso os lustrou e escovou-os produzindo aquele brilho fosco. Olhou os sapatos como quisesse ver-se refletido nele. Levou para o quarto, colocando-os em frente à cômoda. Dirigiu-se para o banheiro, abriu o chuveiro, despiu-se e entrou no box. Deixou a água escorrer sobre seu corpo, lavando-o da cabeça aos pés. Sentou no chão ficou ali, apenas sentindo a água tocá-lo. Enxugou-se e voltou ao quarto. Sentou-se na cama e chorou por quase dez minutos, tentando secar as lágrimas com as mãos. “E você pretende fazer alguma coisa contra essa realidade?”, perguntou Lu, abraçando-o. “Na verdade não se trata de fazer alguma coisa. Não é fazer, é apenas querer. Queria não ser fraco, ter coragem para lutar. Queria ser capaz de viver no meu mundo, onde nada ou ninguém destruísse meus sonhos. Onde eu pudesse sonhar sem ter a obrigação de realizar meus sonhos e sem me chatear se eles não se concretizarem. Queria somente um lugar para sonhar. Um lugar onde eu pudesse voar, deslizar pelo ar, sem sentir minhas asas derreterem. Onde só houvesse pessoas de coração puro e elas me dariam a mão para voar comigo. Um lugar onde o céu fosse azul claro e o perfume das rosas viajasse ao vento. Um lugar onde todos pudessem criar uma tartaruga, alimentando-a com alface ou pequenos peixinhos secos e vê-las caminhar lentamente pela grama verde. Um lugar onde eu não caia e não existam meus inimigos, onde eu pudesse amar com toda a intensidade da palavra amor. Um lugar onde eu pudesse viver a minha vida e não aquela que os outros escolheram para mim.” “Chega!”, gritou Lu, “isso é sonho!” “Este lugar só existe na tua cabeça. É impossível ir para lá. Só existe este mundo. Somente este. Coloca isso na tua cabeça!” “Aí que você se engana. É possível sim ir para este mundo e eu sei como.”, e começou a falar com a voz baixa, calma e suave, “É como dormir, como dormir e sonhar profundamente, como sonhar tão profundamente que eu conseguiria me transportar para lá. É como dormir e deixar de viver aqui e só vivesse no meu mundo onírico. Como dormir eternamente. É assim que vou passar para lá.” Levantou-se, abriu uma gaveta, pegou uma cueca e vestiu-se. Pegou a camisa que estava sobre a cama e vestiu-a, abotoando vagarosamente cada um dos oito botões. Abotoou os do punho, apanhou a gravata e passou-a pelo pescoço. Mediu-a até achar a altura certa para o nó e tentou fazer o laço três vezes. Na quarta, acertou. Fez um nó windsor, bonito e vistoso. Ajustou o nó na garganta apertando bem. “Como sonhar tão profundamente que eu conseguiria me transportar para lá. Como dormir e não acordar mais. Como dormir eternamente. É assim que vou para lá. Que vou para lá. Eternamente. Profundamente. Vou me transportar para lá. Dormir profundamente, sonhar eternamente. É assim que vou para lá.” Lu acordou com essas frases ecoando na sua cabeça. Elas iam e voltavam num ritmo hipnótico que sobrepunha uma às outras. Era a conversa que teve com seu amigo há dois dias. A conversa lhe perturbava e lhe preocupava. Acreditava que aquilo não fora um mero desabafo. Olhou no relógio: 14:50. Não dormia à tarde. Percebeu: não havia dormido, mas penetrado na conversa, voltado àquele momento de dois dias atrás. O coração começou a bater forte, desesperado, acelerado. “Já sei o que ele vai fazer”, pensou. Chegou à casa de seu amigo cinco minutos depois das três horas. Entrou abruptamente e dirigiu-se ao quarto. Nem percebeu que não havia tocado a campainha ou batido na porta, como sequer se preocupou em descobrir se havia alguém na casa. Entrou no quarto e encontrou o seu amigo de terno preto todo abotoado, deitado na cama, sobre o edredom azul claro com as mãos cruzadas sobre a barriga. Na cômoda viu o vaso com os lírios, as rosas e os ramos de cedro e as quatro velas acesas. Impressionou-se quando viu o crucifixo, de cujo centro saiam feixes dourados, na parede. Tocou-o e no mesmo instante sentiu o seu corpo esfriar até ficar gélido. Sacudiu-o, bateu-lhe na cara, mas ele não reagiu. Ele estava dormindo, e sonhando tão profundamente que já não era mais possível acordá-lo. ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
S. A. R. Lucius I
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