- 31 de julho de 2006 -

 

Chegando à sua 5ª edição, O Arauto vem a público mais uma vez. Desta vez mais curto, mas não menos interessante.
 
Marquês de Beauvais
Diretor de redação
 
Por problemas técnicos, esta edição circulará apenas na Lista Nacional de Sofia.
 
Eleições em suspense
 
 
Enquanto se aproxima o período de eleições para a última legislatura do ano, a realização do pleito permanece indefinida. As dúvidas recaem sobre a ausência do juiz do principado, S. A. Paulo Martins, duque de Cornwall, a quem cabe organizar, iniciar e concluir a eleição.
 
O magistrado, presidente do Poder Judiciário nacional, foi recentemente questionado na Assembléia de Fanes se poderia continuar exercendo suas funções diante do referido Poder, além de ser acusado de não haver respondido o Censo Geral e, conseqüentemente, ter perdido a cidadania e o cargo.
 
O Primeiro Ministro, S. G. Ricardo Ribeiro, marquês de Belleville, que já convocou as eleições como manda a legislação, sugeriu oficialmente que o Conselho Real dos Nobres se encarregue de assumir o papel do juiz, para que os cargos executivos e legislativos não fiquem vacantes por outro longo período, como já aconteceu outras vezes em Sofia.
 
Na mesma situação se encontra a realização do plebiscito sobre a forma de governo, convocado em junho.
 
 
Ter ou não ter título
 
 
A recente saída de Sofia do visconde de Fairview, S. G. Leonardo Reis de Laudicena Aster Fernandes Habermas, herdeiro do ducado de Port Hope e membro da Família Real, trouxe a público uma questão: quando se deve ou não retirar um título de nobreza.
 
Analisando a história, desde a fundação da Corte Heráldica de Sofia, vemos que foram raras as vezes em que um título foi oficialmente revogado pelo monarca sem que a revogação fosse expressamente solicitada pelo titulado.
 
Outro fato interessante. O Código Nobiliárquico traz em seu artigo 11: "O membro da nobreza do Principado de Sofia, seja ele nacional ou estrangeiro, que fizer qualquer declaração contrária ou usarem de expressão ofensiva ou manifestação de menosprezo com referencia ao Príncipe, à Monarquia ou ao Principado de Sofia, perderão automaticamente seus títulos de nobreza e todos os direitos que tinham ao uso de qualquer símbolo de nobreza, sem que para isso haja a necessidade de qualquer processo judiciário, pois "de jure" não é nobre o titular que tiver tal comportamento." No entanto, mesmo que seja enunciada a perda automática do título, o fato só se torna realidade com a revogação oficial do mesmo. O motivo é que, a princípio, o único com o poder de julgar essa matéria é o Príncipe Monarca, e cabe somente a ele regular sobre qualquer assunto referente aos títulos nobiliárquicos, ainda que por vezes auxiliado pelo Rei das Armas.
 
O mais recente título revogado em Sofia foi o de conde de Wilshire, em janeiro deste ano, outrora concedido ao príncipe pathrano Gustav Graves Logos. O mesmo foi revogado sob expresso pedido seu.
 
 
Desgraça nobiliárquica
o exemplo do duque de Aveiro
 
 
A história macro registra inúmeros casos em que um determinado nobre "caiu em desgraça" diante de um rei. A expressão "cair em desgraça" significava, então, perder a intimidade e a confiança do monarca, e por esse motivo ser afastado do círculo de poder e influência das cortes do Antigo Regime.
 
Exemplos não faltam nas monarquias européias, como no caso do duque de La Rochefoucault, na França de Luís XIV. Outras vezes o caso envolveu até a morte, como aconteceu com o duque de Norfolk na Inglaterra de Elizabeth I. No primeiro caso, o duque foi punido por ter guerreado contra o rei; no segundo, foi decapitado por ser católico num reino anglicano.
 
Em Portugal, o caso mais célebre e mais sangrento de "desgraça" de um nobre se deu em 1758. Nessa época era D. José Mascarenhas o 8º duque de Aveiro, casa das mais ilustres do reino e ainda aparentado com a família real. No entanto, o duque tramou a morte do rei D. José I, tendo como comparsas alguns de seus parentes, como o marquês de Távora. Mal executado o plano, o rei escapou por pouco, e toda a trama foi revelada, para a incredulidade de todos.
 
Uma tal traição deveria ser julgada à altura, e assim fez D. José I e seu primeiro ministro, o futuro marquês de Pombal. Não bastaram ser mortos todos os envolvidos, de forma vergonhosa. Considerado o principal engenheiro do plano, D. José Mascarenhas perdeu o título de duque de Aveiro e teve todos os bens de sua família apropriados pela Casa Real. Todos os seus brasões e armas foram destruídos ou apagados de onde aparecessem. Seu palácio foi arrasado, a terra salgada e ordenou-se que no terreno jamais se voltasse a construir. No lugar, foi erigida uma coluna lembrando o fato para a eternidade.
 
Mas tão grave foi o ato que os participantes acabaram condenando toda a sua descendência, diferentemente de casos anteriores. O duque de Norfolk, por exemplo, após ser decapitado, teve todos os seus bens e títulos repassados ao seu filho. O mesmo já tinha ocorrido com outros nobres portugueses, como o próprio duque de Bragança. Já no caso do duque de Aveiro, a condenação foi inesquecível: assim como o título de marquês de Távora, o ancestral e real título de duque de Aveiro foi extinto para todo o sempre. O próprio sobrenome Távora foi abolido dos familiares, e o herdeiro do ex-duque, Martinho, marquês de Gouvéia, que também fora preso, foi o último de sua linhagem, outrora uma das mais brilhantes e honradas de Portugal, e daí em diante "desgraçada" para sempre.
 
 
Abrindo as Portas
 
 
Conselho Real de Nobres
 

Não foi concluída nenhuma votação no plenário do Conselho no mês de Junho.

Nobres Presentes:

Lorde Maior - Duque de East-Point - S. A. Jorge Casagrande Delli
Arquiduque de São Lourenço - S. A. Felipe Fonte
Duque de Port Hope - S. A. R. Lucius I
Duque de Sherbrooke - S. A. Manoel Augusto S. R. F. Alves
Marquesa de New Glasgow - S. G. Fernanda Delli
Marquês de Belleville - S. G. Ricardo Ribeiro - Não Votante
Marquês de Fontainebleau - S. G. Fernando Delli
Marquês de Nouvelle-Labrosute - S. G. Marcelus Silva
Marquês de Beauvais - S. G. Valentim S. da Costa

 
 
IV FPPS
Festival de Prosa e Poesia Sofista
 
Lucas von Alberdeen
3º lugar - categoria prosa
 
Um ser humano

Jonas é a pessoa mais enigmática que eu conheço. Olha o mundo ressabiado, mantendo ressalva, talvez para evitar que alguém o prejudique. Age calculando seus atos, cada passo só é dado depois de que todas as conseqüências possíveis foram avaliadas. Mas nada dessa virtude o faz um homem de opinião, nada o dá características de precisão no seu falar. Talvez ele nem queira sugerir essa impressão, talvez ele prefira a ambigüidade, o direito de ser várias almas no mesmo corpo.

Talvez ele nem age por conta própria, apenas segue sua intuição ou cumpre os traçados impostos por outrem. Talvez ele nem os siga, apenas fica parado no centro enxergando cada caminho que não tomou. Talvez ele nem ande sozinho, talvez ele é levado pelos que tomam sua mão e o guiam por seus rumos. Talvez nem o guiem porque talvez ele nem tenha amigos. Talvez ele tenha muitos amigos, que como amigos ora são amigos ora não valem o pó que pisam. Talvez eles são também seus inimigos. Talvez os que estão a sua volta sejam sua família, ou não passam de meros desconhecidos, quem sabe? Talvez nem ele sabe que elas são seres humanos. Talvez ele nem percebeu que está no mundo, ou pode ser que ele ainda vive em seus devaneios. Talvez ele seja a pessoa mais importante do mundo, ou um dos seis bilhões de humanos. Talvez, para ele, o mundo não existe. Nada existe! Talvez dia e noite são vida e morte, quem sabe, meras divisões do tempo. Talvez Jonas tem mil anos, talvez ele nem completou o primeiro. Talvez ele já viveu muitas vidas ou então ainda não viveu esta. Talvez ninguém vive suas vidas. Talvez ninguém tem o direito de vivê-las.

Talvez Jonas seja um homem maduro, talvez um velho ranzinza, talvez uma amável criança, não sei. Como também não sei se ele é alto ou baixo, gordo ou magro, feio ou bonito, bom ou ruim. Talvez ele seja uma mistura de todas as virtudes e de todos os defeitos do ser humano. Talvez ele seja uma pessoa fria, calculista, meticuloso, inerte diante do mundo que passa e o deixa, ou a pessoa mais calorosa que conheci, cuja luta principal seja acompanhar o mundo. Talvez ele seja a melhor alma dentre as que vagam por aqui, ou talvez nem alma ele tem. Às vezes não é nada mais que uma máquina do mundo mecanizado. Pode ser! Tudo pode ser... Talvez seu olhar reservado nem olhe mais, desistiu de olhar, talvez nem olhos ele tem. Mas de vez em quando ele tudo olha, é o grande irmão.

Talvez seu olhar fale por sua boca, talvez de seus olhos ecoam as mais belas e sábias palavras destrutivas. Talvez olhos e boca sejam a mesma coisa. Talvez nem boca ele tem, talvez não fala, não grita, não geme, não sussurra, não elogia, não critica, talvez não. Acho que o mundo faz por ele. Talvez ele esteja preso, impedido de falar. Talvez ele seja prisioneiro de sua alma. Talvez cárcere de uma prisão que só existe para ele.

Talvez tenha filhos, talvez ele seja filho do filho de seu próprio filho. Talvez ele é casado, ele tem amante, construiu família. Talvez sua única família seja ele mesmo. Sua casa pode ser uma mansão ou um mísero casebre no mais reles morro da cidade. Quem sabe sua casa não é seu próprio corpo. Quem sabe Jonas, com tanto dinheiro, posses, dólares e jóias, seja a pessoa mais pobre dentre os pobres. Talvez ele é o presidente, o engenheiro, o professor, o jornalista, o vendedor, o feirante, um edil, ou o moribundo na fila do hospital. Não sei, mas será que ele não é ele mesmo? Talvez ele anda elegante, engravatado, ou de jeans, ou comum, ou nu. Talvez sua pele o cubra das mazelas, talvez ela proteja o mundo dos males. Ou nem pele tenha.

Talvez sua história conte um livro, um belo romance, um pequeno conto, uma vasta enciclopédia, ou uma cômica crônica, ou até uma rápida nota de rodapé na capa de uma tribuna. Talvez sua vida não valha uma pincelada de tinta, talvez ela seja tão reles ou medíocre quanto a minha. Talvez ele seja um homem cativante, que marcou o mundo, que viveu intensamente, emocionou e se emocionou. Talvez ele seja um ser único que o mundo jamais verá igual. Talvez ele seja tão igual quão as pessoas a minha volta. Talvez ele nem exista, só conflite comigo. Talvez ele seja somente um personagem que me pediu uma história, que me impediu de dormir, de viver até que a pusesse num papel, que me atormentou e me dominou. Talvez ele seja eu mesmo. Ou talvez ele seja apenas um ser humano!


 

O Arauto
Registro: 188.01.00.06/2006

Diretor-Geral:
S. A. R. Lucius I
Príncipe Monarca de Sofia

Diretor de Redação:
S. G. Valentim S. da Costa
Marquês de Beauvais

Produção:
Sir João Henrique S. R. F. Alves

Contatos:
saoremigio@yahoo.com.br